A lenda do Azulão

Aqueles que queimam livros, acabam cedo ou tarde por queimar homens. (Heinrich Heine)

Está em Gênesis: No princípio foram criados os céus e a terra, é cláusula pétrea. Não pode haver alteração. Mas, seu bisavô foi fecundado como Hobbits, gerou um Frodo, sua manjedoura não foi uma estrebaria, mas o oceano. Nasceu com duas patas e pés-peludos, era seu destino. Acorrentado e encabrestado, foi jogado em navio negreiro, a Arca de Noé daquele século. A senha era: Tem galinha no Porto! E aqui neste sertão ele gerou uma estirpe. Tendo migrado para o sudeste, começou uma linhagem para fazer história. O pai de seu pai vingou na marra, mas sempre foi livre, afinal a liberdade é relativa. Há muitos presos que são livres, como há gente livre aprisionada, como profetizou Gandhi.

Do porto à desembocadura do Rio Grande, de ponta a ponta, por todo o percurso do rio Mogi, pelas beiradas dos brejos e dos varjões, toma forma a lenda do humano que nasceu cavalo, provido de asas como o Pégaso da lenda grega. É apenas na origem que ele aqui difere, tendo vingado junto com as lendas africanas, vindas talvez da Nigéria, ou de Angola, ou de um outro lugar remoto da África Setentrional. Mas tudo na África é remoto, ou quase. Os deuses afirmam que, por sua árvore genealógica, pode ter vindo da África Central ou da Meridional, ou mesmo do Marrocos.

No início, um dialeto árabe com africâner, incompreensível. Hoje apenas um caipira, incorporou o nosso falar capiau. Cresceu forte e saudável, pegou gosto por um esporte que por aqui se eternizou e projetou o país aos quatro cantos do mundo. Tinha uma habilidade diferenciada para lidar com o instrumento principal do jogo, um jogo trazido pelos aventureiros da rainha.

Reza a lenda que o nosso herói tinha uma superioridade física e técnica simplesmente invejável, e o que é mistério vira lenda, como o saci ou a mula sem cabeça.

É normal que ele apareça e desapareça. Nenhuma estranheza da parte dos ribeirinhos. Lá onde o canal do rio se estreita, onde as pedreiras se fazem visíveis, ei-lo que surge em noites frias, em noites de nevoeiro, às vezes disfarçado, lado a lado com a tempestade, a se fundir com raios e trovões. O nosso cavalo alado emerge em um rasante único, tange a água, em respeito à vida que ela representa, arremete em direção às estrelas, traz e leva um misto de euforia e lamento. Não pronuncia mais que seis palavras, que se juntam numa frase: “Não faço milagres, faço apenas embaixadas.”

Mas fazia mais. Brincava de gato e rato com os súditos da rainha, e isso com desenvoltura e cortesia, era elegante nas passadas, jogava sem olhar o jogo, deixando-se guiar apenas pela intuição. Tinha classe e postura, algo raro. Nosso Azulão alado era altivo, soberano, enfim era um ser completo. Há que se entender sua natureza mística, de genes específicos para lidar com as coisas futebolísticas, daí sua extrema habilidade, o que na verdade foi uma concessão dos deuses.

Deixou-se aprisionar pelo jogo, que afinal era sua paixão. Mas, e a vida? Esta seguia seu curso, manias? Usar um bridão de ouro, presente dos fãs, homenagem merecida. Foi montando em chuteiras de prata que nosso Pégaso conseguiu dobrar a vida, matar o horrível monstro da incerteza. Mas, ao tentar se eternizar, o nosso herói corcoveia, sobe aos céus e vira constelação.

Hoje, pelos sítios e fazendas que margeiam o Mogi Guaçu, nas curvas que banham o assentamento Guarany, mulheres temerosas se acotovelam nos fogões e sussurram a lenda, deixam escapar o segredo: Há um corcel, um potro novo que não respeita porteiras nem cercas, é dotado de asas: “É o Péga­so”, diz Heinrich Heine, “que não obedece senão a seu capricho, seja no galope, seja no trote, ou no vôo ao reino das fábulas. Não é uma égua virtuosa e útil da estrebaria burguesa, menos ainda um cavalo de batalha que sabe bater a poeira e relinchar pateticamente no combate dos partidos. Não! Os pés de meu corcel alado são ferrados com ouro, suas rédeas são colares de pérolas e eu as deixo flutuar alegremente.”

 O nosso, se você olhar para o céu, deve procurar pelo Pégaso do cerrado ou do varjão, não pelo cavalo alado da mitologia grega, que este o vento já levou. Aconselho-o, estimado leitor, a fechar os olhos e ver com o coração, até porque o corcel alado que a intempérie arrastou já está de volta na pele de um mustang azulado, “um sábio cavalo velho”, detentor do conformismo e da mansidão.

Ele, hoje, vive aprisionado, entre porteiras e cadeados, ciente de que seu tempo de reprodutor já se passou. Adota, assim, um lenço na cabeça, a simbolizar modéstia e recato, humildade e submissão.

É o que diz a lenda.

Servidor Aposentado da Unesp – FCF/CAr
Pós-Graduação “Lato-Sensu” em Gestão Pública- Gerência de Cidades – FCL/UNESP
E-mail: neumotuca@gmail.com
Blog: www.artigosdoneu.wordpress.com
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